segunda-feira, 27 de julho de 2009

domingo, 19 de julho de 2009

Motivo

Motivo



Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou se desfaço,
- Não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.


Cecília Meireles

segunda-feira, 13 de julho de 2009

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Os homens cult são para amar depois do 30

(Por Ruth de Aquino do blog Mulher7X7 da Revista Época)
"Você já reparou na linhagem dos homens cult? Não se pode viver a vida toda sem namorar um deles. Seria um desperdício.

A Martha já valorizou os pedreiros e derreteu nossos corações para os fofos. Mas o homem que mais me seduz é aquele que eu resolvi chamar de “cult” – o charmoso com traços fortes e viris, rosto fino e anguloso, olhar penetrante, sobrancelhas bastas e vincos de expressão, normalmente lábios finos. Costumam ser morenos ou castanhos. Um ar de poeta. Sorri sem gargalhar.

Não é o mais bonito, nem o mais macho nem o mais simpático. Certamente não é o mais falante – fica na dele, e dá uns toques inteligentes ou de humor sutil no meio da conversa. É irônico e não palhaço, não conta piadas.

O cult lê, e sabe os nomes dos autores. Vai a um filme e conhece o diretor. Conhece artes plásticas. O cult abre a porta do carro para você, sabe ler os mapas ou então conhece as ruas das capitais de cor.

Muitos arquitetos e escritores são “cult”. Misturam um blazer Armani com um tênis sem marca de cadarço colorido, repetem roupa, a camiseta pode ser vermelha, o decote em V. A écharpe é preta ou listrada. Gravata, eles fogem.

Na vida íntima, podem ser um pouco autoritários ou impacientes de vez em quando. Mas cuidam de verdade da mulher. Me Tarzan you Jane. Guardam o seu passaporte no bolso na hora da viagem para você não perder na bolsa.

Detestam freeshops ou comprinhas demoradas. Não são de ver vitrine e, quando precisam de algo, entram e compram em 10 minutos. Preferem escolher o próprio presente e não são muito afeitos a surpresas. Festa-surpresa então esquece. Mais de quatro pessoas é multidão.

Costumam ser independentes e gostam de mulheres que não peguem no pé deles. Eles também não pegam no pé delas – a não ser para fazer carinho.

Quer afastá-los? É só fazer uma cena de ciúme.

Ou falar de abobrinha sem parar. As palavras para eles têm peso e valor.

Não guardam datas, são mais práticos do que românticos. Preferem viagens urbanas e não vão para a Índia ou para o Deserto do Atacama no Chile…

Não olham para toda mulher bonita que passa. Ou, se olham, disfarçam. Sedutores, jamais galinhas.

São aqueles homens-rocha, que não caem em armadilhas emocionais mas te acalmam quando você está prestes a ter um ataque de nervos ou hormônios. São a imagem da maturidade. Excelentes no frio porque abraçam bem, não têm ansiedade nenhuma no sexo – não dão colo! – e escolhem os vinhos certos.

Eu acho que o cult é pra se apaixonar loucamente – sem mostrar demais. Ajuda se você tiver mais de 30 anos e não for muito insegura. Como ele gosta de escutar e é elegante, 90% de seus amigos são mulheres. Fica amigo de todas as ex, e as mulheres vivem pedindo conselhos a ele.

Aí vai uma lista de homens cult que selecionei para vocês. Não consegui lembrar de muitos brasileiros famosos que caibam nesse perfil. Se você tiver alguma sugestão, mande. Incrível como há britânicos nesse grupo. Incrível não. Morei em Londres muito tempo. E acho que me rendi ao jeito introspectivo e ao humor inconfundível desses homens que conquistam sem fazer muita marola.

Ralph Fiennes, ator inglês, 46 anos.
Alan Pauls, escritor argentino, 40 anos
Jeremy Irons, ator inglês, 60 anos
Walter Salles, cineasta brasileiro, 53 anos
Gabriel Byrne, ator e produtor irlandês (*), 49 anos (antes de trabalhar em cinema, foi arqueologista, cozinheiro e toureiro)
Rodrigo Santoro, ator brasileiro, 34 anos
Daniel Day-Lewis, ator inglês com cidadania irlandesa, dois Oscar com Meu Pé Esquerdo e Sangue Negro "
(*) AMOOOOOOO rsrsrs

Jennifer Hudson cantando MJ's "will you be there"

Adoro a música e AMO essa cantora ! Que voz maravilhosa !!! Emocionante !

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Trilha de contradições


"Convencidos de que pensar dói e de que mudaré negativo, tateamos sozinhos no escuro, manada confusa subindo a escada rolante pelo lado errado"
"Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce." Já escrevi sobre essa frase. Sim, repito alguns temas, que são parte do meu repertório, pois todo escritor, todo pintor, tem seus temas recorrentes. No alto dessa escada nos seduzem novidades e nos angustia o excesso de ofertas. Para baixo nos convocam a futilidade, o desalento ou o esquecimento nas drogas. Na dura obrigação de ser "felizes", embora ninguém saiba o que isso significa, nossos enganos nos dirigem com mão firme numa trilha de contradições.

Apregoa-se a liberdade, mas somos escravos de mil deveres. Oferecem-nos múltiplos bens, mas queremos mais. Em toda esquina novas atrações, e continuamos insatisfeitos. Desejamos permanência, e nos empenhamos em destruir. Nós nos consideramos modernos, mas sufocamos debaixo dos preconceitos, pois esta nossa sociedade, que se diz libertária, é um corredor com janelinhas de cela onde aprisionamos corpo e alma. A gente se imagina moderno, mas veste a camisa de força da ignorância e da alienação, na obrigação do "ter de": ter de ser bonito, rico, famoso, animadíssimo, ter de aparecer – que canseira.
Como ficcionista, meu trabalho é inventar histórias; como colunista, é observar a realidade, ver o que fazemos e como somos. A maior parte de nós nasce e morre sem pensar em nenhuma das questões de que falei acima, ou sem jamais ouvir falar nelas. Questionar dá trabalho, é sem graça, e não adianta nada, pensamos. Tudo parece se resumir em nascer, trabalhar, arcar com dívidas financeiras e emocionais, lutar para se enquadrar em modelos absurdos que nos são impostos. Às vezes, pode-se produzir algo de positivo, como uma lavoura, uma família, uma refeição, um negócio honesto, uma cura, um bem para a comunidade, um gesto amigo.
Mas cadê tempo e disposição, se o tumulto bate à nossa porta, os desastres se acumulam – a crise e as crises, pouca trégua e nenhuma misericórdia. Angústias da nossa contraditória cultura: nunca cozinhar foi tão chique, nunca houve tantas delícias, mas comer é proibido, pois engorda ou aumenta o colesterol. Nunca se falou tanto em sexo, mas estamos desinteressados, exaustos demais, com medo de doenças. O jeito seria parar e refletir, reformular algumas coisas, deletar outras – criar novas, também. Mas, nessa corrida, parar para pensar é um luxo, um susto, uma excentricidade, quando devia ser coisa cotidiana como o café e o pão. Para alguns, a maioria talvez, refletir dá melancolia, ficar quieto é como estar doente, é incômodo, é chato: "Parar para pensar? Nem pensar! Se fizer isso eu desmorono". Para que questionar a desordem e os males todos, para que sair da rotina e querer descobrir um sentido para a vida, até mesmo curtir o belo e o bom, que talvez existam? Pois, se for ilusão, a gente perdeu um precioso tempo com essa bobajada, e aí o ônibus passou, o bar fechou, a festa acabou, a mulher fugiu, o marido se matou, o filho... nem falar.
Então vamos ao nosso grande recurso: a bolsinha de medicamentos. A pílula para dormir e a outra para acordar, a pílula contra depressão (que nos tira a libido) e a outra para compensar isso (que nos rouba a naturalidade), e aquela que ninguém sabe para que serve, mas que todo mundo toma. Fingindo não estar nem aí, parecemos modernos e espertos, e queremos o máximo: que para alguns é enganar os outros; para estes, é grana e poder, beleza e prestígio; para aqueles, é delírio e esquecimento.
Para uns poucos, é realizar alguma coisa útil, ser honrado, apreciar a natureza, sentir o calor humano e partilhar afeto. Mas, em geral medicados, padronizados, desesperados, medíocres ou heroicos, amorosos ou perversos, nos achando o máximo ou nos sentindo um lixo, carregamos a mala da culpa e a mochila da ansiedade. Refletindo, veríamos que somos apenas humanos, e que nisso existe alguma grandeza. Mas, convencidos de que pensar dói e de que mudar é negativo, tateamos sozinhos no escuro, manada confusa subindo a escada rolante pelo lado errado.

Lya Luft é escritora.
Coluna Veja.com